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A vida acadêmica no Québec

Dia a dia universitário no Québec: o que esperar?

Guilherme D. Garcia

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Outono no campus

A vida dentro de uma universidade talvez não varie tanto quando você imagina ao redor do mundo. Contudo, cada lugar tem suas peculiaridades, e o Québec não é diferente. Neste post, vamos ter uma amostra da rotina dentro de um campus, mais especificamente dentro da Université Laval (ULaval), na cidade de Québec, onde leciono no departamento de línguas, linguística e tradução, localizado no prédio Charles-De Koninck (foto abaixo).

O ano letivo

O ano letivo na ULaval vai tipicamente do início de setembro ao fim de abril. O período de verão (de maio a agosto) também possui atividades, mas você estudará principalmente nas sessões de outono (setembro a dezembro) e inverno (janeiro a abril). Ou seja, entre maio e setembro, você está “em férias”, dependendo do seu cronograma e programa. No período do Natal, temos um recesso entre metade de dezembro e metade de janeiro, aproximadamente.

Prédio Charles-De Koninck
Prédio Charles-De Koninck no inverno, Université Laval

Você deve ter notado que há bastante tempo “livre”. Para quem vem do Brasil, a sensação é de que o ano letivo é rápido, intenso e comprimido. Essa sensação é, de fato, baseada na realidade. Cada sessão (equivalente estruturalmente ao nosso semestre) tem 15 semanas de aula, embora haja uma semana de leitura sem aulas. Ou seja, cada disciplina terá 14 aulas em sala de aula, via de regra. Mas não se engane: todo esse tempo livre é preenchido com diferentes atividades extracurriculares.

A maioria dos estudantes inicia a graduação no outono (em setembro), mas há muitas situações em que o início é no inverno (em janeiro). Também há estudantes que precisam fazer cursos preparatórios de língua francesa, algo que pode ocorrer no verão (entre maio e agosto), por exemplo. Esses cursos são pré-requisitos para o início da graduação. Soma-se a esses pré-requisitos a exigência bastante comum de atingir um determinado nível de proficiência em língua inglesa, por exemplo, ao longo da graduação.

O sistema acadêmico

Os alunos do Québec não chegam à universidade diretamente do ensino médio (que vai do 7º ao 11º ano na província). Em vez disso, passam por um Cégep (Collège d’enseignement général et professionnel). Trata-se de uma formação pós-secundária mas pré-universitária. Completar um Cégep dá ao aluno um Diplôme d’études collégiales e reduz o tempo de duração da graduação (por exemplo, 3 anos em vez de 4 anos). Mais importante do que isso, esse período significa que os estudantes recém chegados na graduação têm mais maturidade acadêmica, algo importante tanto para o aluno quanto para o professor.

Prédio Palasis-Prince
Prédio Palasis-Prince, Université Laval

Os alunos de outras províncias (ou de outros países) não passarão pelo Cégep, uma vez que o sistema existe apenas no Québec. Para eles, a graduação será ligeiramente mais longa (por exemplo, 4 anos em vez de 3 anos). Ou seja, em vez de iniciar a graduação aos 17-18 anos, como no Brasil, o estudante do Québec tipicamente entra na universidade aos 19-20 anos, em média.

É importante salientar que a rotina de estudantes de certas áreas será bastante diferente daquilo que conhecemos no Brasil, simplesmente porque os sistemas acadêmicos têm suas próprias diferenças estruturais. Por exemplo, medicina e direito (graduações muito procuradas no Brasil), são pós-graduações aqui.1 Ou seja, o estudante típico dessas áreas aqui no Québec já tem formação superior no início do curso, o que altera a estrutura e a rotina esperada em ambos os casos.

Graduação e pós-graduação

Tipicamente, o sistema acadêmico anglófono da América do Norte utiliza os termos undergraduate degree para graduação e graduate degree para a pós-graduação, que inclui mestrados e doutorados. A terminologia varia, mas chamamos mestrados de master’s degrees e doutorados de doctorates (termo mais neutro do que PhD). Embora todo PhD (Doctor of Philosophy)2 seja um doctorate, nem todo doctorate é um PhD, já que há diferentes títulos de doutorado (Doctor of Science, Doctor of Education, Medical Doctor, etc.).

No Québec, utilizamos a terminologia a seguir:

  • Graduação: études de premier cycle (baccalauréat)
  • Pós-graduação: études de cycles supérieurs (maîtrise para mestrado e doctorat para doutorado)

O termo baccalauréat lembra “bacharelado”, então é intuitivo para nós brasileiros. Mas é importante salientar que esse termo não terá esse significado na França, por exemplo. Lá, baccalauréat é o exame ou diploma de conclusão ensino médio (lycée).

O bacharelado em que atuo (Sciences du langage) oferece ao aluno diferentes concentrações, que combinam linguística, cognição, cultura e sociedade. Para fins de comparação com a realidade brasileira, o programa combina Letras (bacharelado) e Psicologia. Não se trata de uma licenciatura (para lecionar, a graduação adequada é Didactique de langues).

Uma das principais diferenças que um estudante notará em uma universidade canadense será a estrutura física, que é excelente. Como nossos invernos são rigorosos e longos, a temperatura interna dos prédios é um elemento essencial. Na Université Laval, temos prédios com bastante iluminação natural, algo importante para os meses de inverno: de novembro a abril, as temperaturas são baixas ou muito baixas para os parâmetros brasileiros, não raro passando dos -20ºC no auge do inverno, em janeiro ou fevereiro.

Túneis no campus da Université Laval
Duas opções para o mesmo trajeto: túneis aquecidos oferecem uma opção prática para dias chuvosos, muito frios, ou muito quentes no campus.

Além disso, todos os nossos prédios são interconectados por túneis com calefação, que vão até a parada do ônibus dentro do campus. Ou seja, você não precisa andar no frio para ir de um prédio a outro dentro do campus. Consequentemente, você pode ir às aulas, almoçar, ir à livraria, à academia, nadar, correr, e até mesmo ir a um pub sem precisar sair no frio se não quiser. Isso torna a rotina de qualquer um no campus bastante confortável e prática. O mapa completo do campus (incluindo túneis) pode ser consultado aqui.

A semana típica de um aluno de graduação

Como exemplo, pedi a um aluno que oriento do curso de ciências da linguagem para que descrevesse uma semana típica de estudos no campus. Armand Aubé está no segundo ano da graduação e é natural de Alberta. Ele foi gentil em enviar seu relato em português:

Estudo linguística e meu programa é totalmente ministrado em francês. Meus cursos abordam temas de linguística formal, mas igualmente de sociolinguística e do componente francófono em Québec. Como estudante em tempo integral,3 tenho normalmente 15 horas de aula no campus por semana, mas passo muito tempo na biblioteca. Geralmente, eu estudo cerca de 10 horas por semana, mas muito mais quando tenho exames. Neste semestre, estou fazendo um projeto estudantil que explora a adaptação fonológica de empréstimos do espanhol na língua basca. Além disso, participo de um workshop em linguística formal uma vez por mês no campus.

Fora isso, tenho uma vida social rica e muitos interesses pessoais. Tenho uma paixão pela música barroca e por idiomas diferentes. Durante o inverno, visito a minha família do outro lado do país na Ilha de Vancouver. No verão, estudo idiomas (o basco este ano) e viajo se possível. Neste verão, eu fui ao País Basco para praticar e melhorar o meu basco: foi uma experiência incrível! Eu trabalho como recepcionista em uma clínica de podiatria, como assistente em um curso de fonética e fonologia, como tutor de sintaxe e, em breve, também serei um assistente para um projeto de pesquisa em fonética. Meu horário é cheio, mas estou muito feliz com o que a vida universitária me oferece (P.S.: Os invernos não são tão divertidos quanto parecem!).

Sala de aula no prédio Charles-De Koninck, Université Laval
Sala de aula no prédio Charles-De Koninck, Université Laval

A semana típica de um professor

Meu tempo se divide em ensino, pesquisa, e serviço. Dou duas disciplinas pour semestre (quatro ao ano), o que significa que estou em sala de aula duas vezes por semana. Cada aula dura 2h50, então passo aproximadamente 6 horas por semana em sala de aula. Preciso de algumas horas adicionais para dúvidas de alunos, correções, elaboração de provas, e orientação de meu assistente de ensino. Como meus materiais já estão prontos hoje em dia, gasto mais ou menos 10 horas semanais com ensino (multiplique isso por 2 caso você esteja começando e ainda não tem suas aulas preparadas). Ao longo da semana, também tenho reuniões, orientações, e comités variados, algo que gera em média 5-10 horas de trabalho, dependendo do mês. Soma-se a isso o tempo que gasto com meu trabalho de editor associado de um periódico, aproximadamente 5 horas.

Prédio J.-A.-DeSève, Université Laval
Prédio J.-A.-DeSève, Université Laval

Tarefas relacionadas à pesquisa somam de 10h a 15h: revisão de resumos e artigos para periódicos, desenvolvimento e manutenção de projetos de pesquisa, orientação para assistentes de pesquisa, pedidos de bolsas, análises de dados, escrita de artigos, etc. Por fim, gasto por volta de 5 horas por semana com projetos de alunos orientandos (reuniões, preparação, leituras, etc.). Cada semana tem diferentes intensidades de trabalho: essas 35h formam a essência média de cada semana. Há semanas mais calmas, e há semanas bem mais intensas.

  1. O status desses dois cursos é um pouco mais complexo, mas não entraremos nesses detalhes. ↩︎
  2. PhD não é pós-doutorado. Pós-doutorado é um estágio de pesquisa, não um título. Portanto, “ser pós-doutor” não faz muito sentido. ↩︎
  3. O que implica quatro ou cinco disciplinas por semestre/sessão. ↩︎

Guilherme é professor de Linguística na Université Laval, em Québec. Natural do Rio Grande do Sul, imigrou para o Canadá em 2012 e realizou seu doutorado na McGill University. Foi professor universitário nos Estados Unidos e no Reino Unido antes de regressar ao Québec em 2022. Além da vida acadêmica, tem interesse por tecnologia, fotografia, literatura e música. Seu site pessoal é gdgarcia.ca.

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